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Manifesto contra a ignorância na aprendizagem de música
Muito se comenta sobre a quantidade de informações disponíveis hoje na Internet (e no mundo em geral), e não há dúvida de que isso é extremamente positivo. Há cerca de dez anos atrás, para conseguirmos material de nossos ídolos ou de outros músicos brilhantes cuja obra quiséssemos estudar era necessário um certo sacrifício. Graças à Internet, qualquer um consegue baixar material sobre praticamente qualquer músico: CDs, livros, videoaulas, songbooks e tudo mais estão a poucos cliques de distância. Lógico que é discutível também a questão dos direitos autorais, mas não é isso que gostaria de comentar aqui.
Mas toda essa facilidade traz seus "efeitos colaterais": o primeiro é a sobrecarga de informação: a grande quantidade de material acaba fazendo com que o "obter" se torne mais importante que o "estudar". O segundo, e provavelmente mais importante, diz respeito à qualidade desse material.
Explica-se: no ambiente que propicia a Internet, não há um jeito fácil de separar o bom do ruim. Pense nisso: quando o acesso era difícil, a opinião crítica era mais importante: conhecíamos as coisas por sugestão de amigos, ou de veículos mais consolidados, como algumas das revistas mais tradicionais, por exemplo. No ambiente acadêmico em geral o "controle de qualidade" é bem explícito: um especialista do ramo "filtra" as propostas que acha relevante para publicação. Na Internet, esse "filtro" praticamente não existe.
Esses dois fatores combinados levam ao problema central que tratarei aqui: o autodidatismo impensado. A tamanha disponibilidade de material cria a falsa ilusão de que apenas "dar uma lida" no que é obtido é o bastante. Assim, a verdadeira essência de aprender é ignorada.
Vivemos em uma cultura onde as pessoas não acham ser necessário estudar formalmente para se atingir um nível satisfatório de qualidade. Em outras palavras, o autodidatismo sem a disciplina de aprendizagem é praticamente a única regra atual. É por isso que temos tantos problemas com pedreiros, mecânicos e tantos outros profissionais. Profissões essas que culturalmente são aprendidas "na marra". "Na escola da vida", como dizem.
Não que o problema esteja na profissão, claro que não! Hoje em dia há excelentes cursos para pedreiros, mecânicos e tudo o mais, a questão é convencer alguém a fazê-los. O problema está no profissional e na nossa cultura que nos ensina que podemos fazer qualquer coisa por conta própria, sem precisar "sentar a bunda na cadeira" (com o perdão da expressão) para estudarmos formalmente a fim de se obter conhecimento. Não estou descartando o estudo "por conta própria", ou autodidatismo. Mas esse deveria ser um aliado e não a única abordagem. Autodidatismo só funciona quando o estudante já aprendeu a aprender, e são raros os que tem essa habilidade inata.
O termo "autodidata" também possui um certo status na comunidade musical. Associa-se ao autodidata uma noção de habilidade natural, uma aura de talento acima da compreensão que - não há como negar - adiciona à imagem do artista. Isso faz com que as pessoas achem que estudar formalmente ao invés de ter talento natural é um demérito Como bem comentaram Joseph O'Connor e John Seymour no livro "Introdução à Programação Neurolingüística":
Há uma idéia estranha na nossa cultura. Acredita-se que descobrir como explicitamente se faz algo vai prejudicar o desempenho, como se a ignorância fosse um pré-requisito para a excelência.
E olha que estavam comentando sobre a cultura norte-americana onde até para ser porteiro de prédio se faz curso. Imaginem então como isso se aplica em dobro para a nossa cultura.
Da mesma forma que aprendemos a dirigir fazendo aulas práticas e teóricas, ou seja, estudando e vivenciando a situação, as aulas de música também deveriam merecer o mesmo valor. Ao invés de apenas baixar vídeo-aulas e digitações pela internet, todos deveriam procurar um bom professor de forma que pudessem vivenciar a experiência ao invés de apenas ler sobre ela. Se dirigir, que é tão mais fácil que tocar um instrumento deve ser aprendido com um professor, porque não um instrumento também? Senão bastaria apenas baixarmos apostilas e uns vídeos pela internet para sairmos dirigindo bem por aí. Se todos que dirigem estudam para isso e ainda assim temos tantos maus motoristas, imaginem o que acontece com a música que além de mais difícil ainda sofre com a baixa qualidade do aprendizado.